Factor C


“Há muito que se tornou um clássico da nossa política: um concurso que envolve o Estado é ganho, por mero acaso e feliz coincidência, por um ex-sócio de um ministro.

Desta vez, coube a António Lamego, ex-sócio como advogado de Alberto Costa, actual ministro da Justiça, ganhar a compra de um apetecível convento em Setúbal que há uns anos servia como prisão.

Lamego diz que tudo correu de acordo com os trâmites normais e que não teve um tratamento de favor. O ‘Público’, que dá a notícia, diz que a empresa que comprou a prisão não estava sequer constituída no momento em que se fez o negócio. Posso tentar acreditar em todos, na benevolência e ingenuidade dos envolvidos, mas – caramba! – dizer que não desconfio é-me honestamente impossível.

Lamego, o ex-sócio do ministro, (no caso de ser amigo dele) nem deveria ter concorrido a algo que depende do seu Ministério. Claro que, se pretendia queimá-lo perante a opinião pública, fez um golpe de mestre.

Alberto Costa, no caso de saber de antemão que o seu ex-sócio ia concorrer, deveria tê-lo desaconselhado. Bastante veementemente. Estas atitudes são próprias de qualquer código de ética entre gente séria, quero crer que de Lisboa a Pequim.

No caso, improvável, de nenhum ter percebido de antemão que o outro estava envolvido, poderiam agora resolver o problema e anular o concurso, demonstrando a todos nós que, neste país, não se progride por amizades bem colocadas mas pelo mérito de cada um.

Mas, caso contrário, se Costa soubesse das intenções de Lamego e Lamego soubesse das intenções de Costa, há ainda a possibilidade de o primeiro-ministro se zangar verdadeiramente com este método de actuação, chamando o ministro da Justiça, desautorizando o concurso e demitindo-o imediatamente.

Eu sei que isto parece lunático, sobretudo em Portugal, mas enquanto não houver aquilo que Mário Soares costumava designar por ‘sobressalto’uma atitude radical e exemplar contra esta espécie de submundo de interesses económicos cruzados com a política, onde lóbistas subterrâneos conseguem o que querem, como querem, tantas vezes à custa dos contribuintes -, o desenvolvimento do país continuará em crise.

Não há pior para a economia do que esta desconfiança em que nada se obtém com esforço e tudo se consegue com cunhas.

Alguém tem de romper o ciclo.”

HenriqueMonteiro, Expresso

(Negrito e sublinhado seleccionado por uemeai )

Já tinha abordado este assunto aqui e aqui.

 .

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