Porreiro, pá! #5


“Neste País, há velhos que pagam os medicamentos a prestações como quem se mata devagar.

Neste País, nascem hospitais privados onde se fecham maternidades e urgências. Por mera coincidência.

Neste País, os alunos rebeldes já têm autoridade sobre os professores e em dias maus até lhes batem.

Neste País, há comentadores que só descobrem o fascismo quando este interfere com o fumo do seu cigarro ou o seu umbigo intelectual.

Neste País, já há boas famílias na lista de cabazes das câmaras municipais. Não por cunha, mas por fome.

Neste País, substituíram-se os valores de uma sociedade pelos valores individuais. Daí a frase «eu tenho os meus valores».

Neste País, prometer raramente significa cumprir. O «prometer» à portuguesa dura o tempo que se demorar a arranjar uma boa desculpa para esquecer.

Neste País, desertifica-se o interior e instalam-se lá casinos, a ver se isto vai a jogar.

Neste País, o líder da oposição promete chegar ao poder e desmantelar o Estado em seis meses. Isto sem reparar que alguém o fará por ele antes que ele sequer tente.

Neste País, sinónimo de progresso e modernidade é sair no New York Times por causa do vinho e das pousadas. Ah! E porque o Douro agora é very tipical.

Neste País, os bancos taxam-nos a vida a juros altíssimos e comissões fartas enquanto eles financiam a sua vidinha em família.

Neste País, o dito socialismo e a dita social-democracia governam desde o 25 de Abril como se o passado não fosse com eles.

Neste País, o fascismo não está no Governo, na Economia nem na Justiça. Não estica o braço nem rapa a moleirinha. O fascismo não tem rosto. Conspira nos corredores e gabinetes. Veste Armani e bebe no Lux.

Neste País, há empresas que racionam a água, o papel-higiénico e as palavras dos seus empregados.

Neste País, há mulheres que só têm emprego se assinarem contratos onde se comprometem a não engravidar nos próximos 10 anos.

Neste País, há empresários e industriais medievais, a pagar salários de terceiro mundo aos trabalhadores com quem comem e contam anedotas, lado a lado e desengravatados, no jantar de Natal da empresa. Antes de anunciar a próxima «reestruturação».

Neste País, há entidades e empresas insuspeitas que ouvem todos os nossos telefonemas e lêem todo o nosso correio electrónico.

Neste País, a fidelidade tem crédito e a lealdade morreu solteira.

Neste País, promove-se o salto à Vara como modalidade olímpica de sobrevivência.

Neste País, dá vontade de fugir para o Portugal que só vem no mapa da Imprensa internacional.”

Miguel Carvalho, Visão

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