Consultadoria

“Por causa das gravuras supostamente paleolíticas de Foz Coa (algumas desenhadas há 30 anos) deixou de se fazer uma barragem que era importante para a regularização do Douro; e, por não se ter feito essa barragem, vai avançar-se agora com a respectiva compensação, que é uma barragem no Sabor – um dos últimos rios despoluídos e em estado natural do país – que terá consequências ambientais desastrosas. […]

Tempos depois, foi a vez das pegadas da passagem de um dinossauro na CREL. “Achado arqueológico de extrema importância“, arranjou logo os seus acérrimos defensores.

[…] por cima da A-24, entre Vila do Conde e Vila Pouca de Aguiar, se fez um ‘loboduto’, para que os distintos animais (que não se sabe ao certo quantos são) não vejam interrompidos os seus supostos territórios de passagem na serra da Falperra. Eu acho o lobo um animal interessante e Deus me livre de não os querer preservar. Mas, francamente, 100 milhões de euros (20 milhões de contos!) por um ‘loboduto’ – onde, ainda por cima e segundo testemunhos locais, é improvável que venha a passar algum lobo, porque não só não se sabe se eles existem mesmo ali como ainda se sabe que ao lado existe uma pedreira que costuma fazer explosões – parece-me um bocadinho, como direi, talvez exagerado?…

[…] Existia uma empresa privada, a Grão Pará, que parece que tinha o mau hábito de se esquecer de pagar à Segurança Social. Como resolver o problema? Por dação em pagamento. Acontece que a dita empresa tinha dois bens, qual deles o mais valioso. Um era um hotel no Funchal, construído ao lado do que dava para imaginar facilmente que um dia seria o prolongamento da pista de aterragem do aeroporto. Quando a pista foi mesmo prolongada, o hotel ficou condenado à falência, porque não há muitos hóspedes que queiram dormir onde aterram aviões. O outro era o Autódromo do Estoril, onde sucessivas injecções de dinheiros públicos não tinham conseguido o milagre de o tornar rentável nem sequer de lá manter a Fórmula 1. E foi com estes dois bens falidos que o Estado se contentou em troca do perdão da dívida. […]

Passaram-se dez anos e o Autódromo do Estoril, depois de dezenas de milhões de euros de dinheiros públicos gastos em melhoramentos, manutenção e honorários dos seus administradores (e, obviamente, sem jamais voltar a ver a Fórmula 1 ou qualquer coisa que se parecesse), foi esta semana posto em leilão público por 35 milhões de euros. Não apareceu nenhum interessado.

Como se conseguiu chegar a este verdadeiro deboche contabilístico? Segundo conta o ‘Expresso‘, da maneira mais simples e mais habitual: através da contratação de estudos e pareceres técnicos a ‘especialistas’. A consultadoria para o Estado – um dos mais prósperos negócios que existem em Portugal.

E sabem porque é que estas coisas acontecem? Porque há um poderosíssimo lóbi de consultadoria instalado à mama do Estado, há anos sem fio, que dita, influencia e condiciona as decisões dos executivos. Para 2008, o Governo orçamentou 370 milhões de euros (!) para gastar com eles em “estudos, pareceres, projectos e consultadoria”. Eles, quem? Pois, isso é segredo de Estado, Há um ano que o semanário ‘Sol’ tenta obter, ao abrigo da Lei de Acesso aos Documentos Administrativos, a lista dos beneficiários deste bodo. Em vão. O Governo fecha-se em copas e os tribunais administrativos protegem-lhe a manha. É que, se visse a público a lista das eminentes personalidades, dos ilustres técnicos e dos influentes escritórios de advogados e consultores que entre si fazem assessoria aos governos – seja para comprar armas, submarinos ou autódromos ou para dar parecer técnico sobre ‘lobodutos’ ou contratos com Angola -, uma grossa fatia da respeitabilidade pública desabaria por terra.

Repito o que de há muito venho dizendo: em termos de cidadania, há duas espécies de portugueses – os que vivem a pagar ao Estado e os que vivem a tirar ao Estado. E o resto é conversa de comendadores ou de ‘benfeitores’.”

(texto com supressões; links meus)

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