Mitos e Factos …

 … nos OGM

Daniele Poli / Agência Cayenne Italy

 

«… Sobre a destruição de parte de uma plantação de milho transgénico, escreveu Ricardo Araújo Pereira, na Visão, “… o milho garante que estava sossegado”.

O que são organismos geneticamente modificados (OGM)? Em que podem ser prejudiciais? Se são maus, por que permitir a sua criação e utilização?

OGM são organismos (plantas ou animais) que contêm um ou mais genes que lhes foram inseridos artificialmente. E qual a vantagem de manipular genes? A resposta é simples: podemos melhorar as qualidades dos organismos, fazer com que cresçam mais rapidamente ou que sejam resistentes a certas doenças, pestes, a certos químicos ou pesticidas, aumentando a rentabilidade e produtividade.

Mas então qual é o problema? Por que se questiona tanto a utilização de OGM e porque se chega a atitudes radicais, e inaceitáveis como em Silves? O problema reside no facto de ser possível que alguns dos genes introduzidos tenham efeitos indesejados e imprevisíveis. Não podemos ainda prever todas as consequências que advêm da introdução de um gene ‘estranho’ num organismo. Só recentemente a ciência permitiu conhecer a totalidade da sequência de DNA de vários organismos. O DNA humano é um código com 3.000.000.000 de unidades. Por seu lado, o DNA do milho é um pouco mais pequeno, com 2.000.000.000 de unidades. Decifrar estas sequências era, até há pouco tempo, uma tarefa extremamente complicada e morosa, sendo necessário depois identificar o que são genes e o que são sequências com um papel diferente. Os seres humanos têm, tanto quanto sabemos, perto de 26 mil genes. O milho parece ter cerca de 60 mil, o que ilustra bem a complexidade do problema e a falta de informação que ainda temos, uma vez que a sequência de DNA do milho não foi ainda anunciada.

Importa realçar outros aspectos relevantes. Ao introduzirmos um gene num organismo não estamos apenas a introduzir ‘mais um’ para juntar aos 60 mil. Não se trata de um efeito aditivo. E se, sem que o queiramos, o milho se tornar resistente a certos herbicidas, impondo-se no meio ambiente sobre outras espécies, alterando assim o equilíbrio natural? E, se como poderia prever o nosso Ricardo, os genes artificiais fizessem com que o milho adquirisse olhos e pernas e desatasse a correr pelo milheiral fora em direcção aos ‘ecoterroristas’ usando as suas folhas para lhes cortar as jugulares?

Por outro lado devemos ter presente que o milho que hoje utilizamos tem sido ‘domesticado’ ao longo dos últimos 6000 anos, que muitos genes foram sendo seleccionados ‘artificialmente’, fazendo com que o milho moderno seja também ‘geneticamente modificado’. À escala evolutiva, 6000 anos são suficientes para um elevado grau de domesticação e consequentes alterações genéticas. A natureza encarrega-se de alterar a informação genética dos organismos para lhes permitir que se adaptem ao ambiente em que vivem.

Sem querer tomar qualquer partido, o que pretendo transmitir é que, cientificamente, não há razões para opiniões inflexíveis, exageradas e, muito menos, violentas. A ciência é nossa aliada, não inimiga, pelo que devemos manter o bom senso nas nossas posições. Por seu lado, a justiça diz-me que devemos banir comportamentos humanos desadequados, inaceitáveis e violentos.»

Tiago Fleming Outeiro, Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, Massachusetts General Hospital, EUA,

in Expresso de 20-Out-2007 (adaptado)

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